segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Em busca de empresas verdes de verdade

Ser “verde” é uma característica cada vez mais valorizada pelas empresas na rotulagem dos produtos. Isso em si é uma ótima notícia, sinal de que o impacto ambiental vem ganhando importância na escolha do consumidor, que, inclusive se dispõe a pagar mais. No entanto, ser ecologicamente responsável ainda é uma tarefa árdua. Levantamentos feitos pela Proteste — Associação de Consumidores e pela Fundação Procon-SP com alguns itens expostos nas gôndolas dos supermercados com apelo ecológico apontam que a maioria ainda pratica o chamado greenwashing, ou seja, a estratégia de dar tons de verde mais vibrantes aos produtos do que eles o são de fato, camuflando custos ambientais e não informando com precisão as características que os fazem, de fato, ecologicamente corretos.

— Há um apelo muito forte para a questão ambiental, por isso fomos olhar os produtos para ver como está a situação. O consumidor não tem como obter na embalagem informações que deem credibilidade a essa mensagem de ecologicamente correto. Como é um assunto muito delicado, estamos estudando como atuar. O nosso foco será a mentira, ou seja, as informações que comprovadamente são falsas, pois, nesses casos, temos de coibir com o Código de Defesa do Consumidor e podemos autuar as empresas — explica Marcos Diegues, assessor-executivo do Procon-SP.

Ecologia não é inimiga do consumo

Karen Guimarães, técnica da Proteste, responsável pelo levantamento da entidade, destaca que a falta de comprovação das informações não se restringe aos rótulos:

— Pesquisamos nos sites das empresas e nem lá conseguimos encontrar informações sobre a forma de produção que comprovem o apelo verde. É difícil ter certeza, mas a leitura do rótulo ainda é a principal fonte de informação para o consumidor. Selos de certificação estão entre os itens aos quais se deve estar atento como forma de comprovação se o produto é ecologicamente correto — ressalta Karen.

O diretor de Política Públicas do Greenpeace Brasil, Sérgio Leitão, recomenda que o consumidor dê atenção a duas informações básicas: composição e origem.

— No caso da carne, por exemplo, pode-se verificar de onde ela vem, se de área de desmatamento, da Amazônia. Na composição química, quais são os efeitos para o corpo, informação que estamos longe de ter aqui. Poderíamos ter outras fontes para auxiliar no processo de decisão, que podem ser os selos ou sites de informação, como existem em outros países — explica.

Segundo o levantamento da Proteste, há casos de produtos do mesmo fabricante e com a mesma composição que custam mais caro somente por ter um “eco” adicionado ao nome. Referindo-se à lista dos “Sete pecados da rotulagem ambiental”, organizada pela consultoria canadense Terra Choice, a associação aponta entre os pecados mais frequentes o da irrelevância:

— É o caso do destaque dado nas embalagens de inseticidas ao fato de que não contêm clorofluocarbono (CFC) na sua composição, já que esta é uma determinação legal. Ou também de ressaltar que o aço ou alumínio das embalagens são recicláveis para dar um tom mais verde ao produto, quando esta é uma característica inerente a essas matérias-primas.
Para Leitão, a maquiagem é até bem-vinda, mas é preciso dar um segundo passo:

— Só se usa maquiagem para fazer parecer mais bonito, e isso mostra a relevância que o tema ganhou nos últimos anos. No entanto, as empresas têm que entender que verde não é adjetivo, é processo. Não pode estar só no marketing que está no rótulo. A preocupação da empresa com o meio ambiente deve estar na cadeia de produção, e o consumidor tem que ser claramente informado sobre isso. Maquiagem é a capa final, queremos saber da porta para dentro da empresa. Isso a gente ainda vê pouco. Depois de 20 anos discutindo o tema, temos que passar para um segundo momento, ou seja, a transparência radical.

O diretor do Greenpeace ressalta ainda que é preciso mostrar aos consumidores que o consumo verde não precisa ser mais caro:

— Cerca de 40 milhões de brasileiros passaram a consumir. Precisamos mostrar a esse novo consumidor que a ecologia não é inimiga do consumo, muito pelo contrário. A produção ambientalmente correta pode reduzir custos, não só pelo preço final do produto, mas também o que se paga indiretamente, via taxas e impostos, pelo custo ambiental.