quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Clientes reclamam das dificuldades para renegociar empréstimos e saldar dívidas

Devo, não nego. Pago quando deixarem


Fonte: O Globo - Defesa do Consumidor

Pessoas que contrataram empréstimo e não conseguem pagar as parcelas sem comprometer a renda mensal têm recorrido a órgãos de defesa do consumidor para renegociar seus débitos. Os chamados superendividados — alguns dos quais ainda têm acesso a crédito — reclamam que bancos e financeiras impõem condições impossíveis para que a dívida seja quitada. De acordo com a Fundação Procon-SP e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, bancos públicos e privados, além de financiadoras de crédito, dificultam a renegociação, principalmente dos consignados.

Tecnicamente, quem contratou um consignado está com os pagamentos em dia, já que as prestações são descontadas diretamente do salário ou da aposentadoria, portanto, não há razão para que a instituição financeira queira renegociar o contrato. Por outro lado, informam os bancos, o consignado é o empréstimo com a menor taxa de juros do mercado — em média 1,6% ao mês — e com o prazo de financiamento mais longo, podendo chegar a 120 meses. O cliente, assim, acaba renovando um empréstimo para pagar outro, comprometendo mais de 30% de seus ganhos, o que já é proibido por lei e deve ser reforçado na atualização do Código de Defesa do Consumidor. Na semana passada, foi apresentado a uma comissão do Senado, relatório com proposta que limita a 30% da renda mensal a soma das parcelas para pagamento de dívidas, corresponsabilizando instituições financeiras que descumprirem esse teto pelo superendividamento do consumidor.

Salário vai todo para o consignado

E há quem fique até sem salário. Foi o que aconteceu com Rubens Santino, de 59 anos, funcionário público em São Paulo. Cliente do Banco do Brasil, ele percebeu, em abril, que não tinha nada a receber. Seus ganhos, de pouco mais de R$ 1,5 mil, passaram a ser direcionados automaticamente para pagar os empréstimos.

— Sou uma pessoa honesta. Nunca pensei que ia viver uma situação assim. Quero pagar, mas nem salário recebo mais. Depois que sofri um acidente, ano passado, pedi transferência do local onde trabalhava, para ficar mais perto de casa. Perdi algumas gratificações, tive que fazer o empréstimo, mas as prestações ficaram muito altas. Fui cinco vezes ao banco, mas o gerente nunca quis negociar. Todas as contas estão atrasadas — conta Santino, que recorreu ao Procon-SP.

Vera Remedi, assessora da diretoria executiva do órgão, diz que, ao ser chamado para a mesa de negociação com os demais credores, o BB alega que não há inadimplentes. Em setembro, o banco foi o mais reclamado no Banco Central.

— O BB negociou em apenas 10% das vezes em que foi convocado. Eles se vangloriam de que podem conceder mais crédito, porque é seguro, mas à custa da escravidão financeira dos consumidores. Agora, depois de várias reuniões, acho que estamos conseguindo avançar — diz Vera.

Outro caso relacionado ao BB, que detém 30% do mercado de consignados no país, é o de Iramar Marinho. Aos 72 anos, o professor de biologia aposentado está sendo acompanhado há dois anos pela Comissão de Superendividados do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) da Defensoria Pública. Conseguiu um acordo com o Itaú. No BB, porém, as parcelas do consignado continuam sendo descontadas mensalmente.

— O sistema financeiro no Brasil é selvagem. A gente pega um empréstimo pensando que vai resolver um problema, mas cria outro. Cortei todas as despesas extras, só compro à vista e aprendi que o dinheiro é uma mercadoria muito cara — diz Iramar, que passou a frequentar os cursos da Escola de Educação Financeira, uma parceria da Defensoria Pública com a Prefeitura do Rio.

Para Larissa Davidovich, coordenadora do Nudecon, é fundamental que, além de negociar suas dívidas, os superendividados tomem consciência do problema.

— Não queremos vê-los aqui novamente. O consumidor tem que se conscientizar da sua responsabilidade ao contratar um empréstimo — argumenta Larissa.

‘Analfabetismo financeiro’

Na Comissão de Superendividados, há, em média, 50 atendimentos por mês, cerca de 10% do total de consumidores endividados que procuram a Defensoria.

— Quem é atendido pela comissão passa por uma avaliação criteriosa. Na maioria das vezes, ele nem sabe a quantos credores devem, não guardou cópia dos contratos. Os principais bancos são nossos parceiros e conseguimos obter 80% de acordos extrajudiciais. E em condições realmente favoráveis para o consumidor — destaca a defensora pública.

Segundo Marcelo Maron, consultor de Finanças Pessoais e mestre em Economia, o superendividamento é resultado da oferta fácil de crédito que tornou-se realidade nos últimos anos com o que chama de “analfabetismo financeiro”.

— As pessoas não têm ideia que uma dívida feita por causa de uma geladeira comprada no cartão de crédito por R$ 3 mil pode se transformar em R$ 650 mil em cinco anos. Dificilmente, conseguirão, sozinhas, obter um acordo com seus credores — diz Maron, acrescentando que, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio, a parcela de famílias endividadas no país em setembro era de 63,4%.

Edmar Casalatina, diretor de empréstimos e financiamentos do BB, disse ao GLOBO que os casos de Santino e Marinho foram analisados e que os empréstimos serão negociados em condições melhores. Segundo ele, o banco designou funcionários para acompanhar as demandas nos 14 maiores Procons do país em um projeto que será ampliado em 2014.

— Na visão dos Procons, não queremos negociar. Mas a verdade é que nossas condições já são as melhores do mercado. Não temos muita margem para a negociação. Nosso interesse, porém, é zerar as reclamações dos clientes — afirmou.

Questionado sobre a política de renegociação que adota, o Itaú informou que negocia empréstimos consignados, mesmo quando o pagamento está em dia.

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